quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Essa é pra fechar o dia (Lauana Prado e Fernando Zor - Cada volta um Recomeço)


Versão 1
versão 2

Cada volta é um recomeço

Mais uma vez
Meu coração esquece tudo que você me fez
E eu volto pra esse amor insano sem pensar em mim
Pra recomeçar, já sabendo o fim

Mas é paixão
E essas coisas de paixão não tem explicação
É simplesmente se entregar deixar acontecer
Eu sempre acabo me envolvendo com você

Nesses desencontros eu insisto em te encontrar
Como se eu partisse já pensando em voltar
Como se no fundo eu não pudesse existir sem ter você

Toda vez que volto eu te vejo sempre igual
Como se a saudade fosse a coisa mais banal
E eu chegando sempre como um louco pra dizer que amo você

Que me leve pela vida o coração
Como versos pra canção
Volto pra você
Volto pelo amor
Não importa se é um sonho pelo avesso
Cada volta é um recomeço


Gleyfy Brauly - Elton Jhon - Sacrifice (Legendado)

Atlético-PR x Fluminense: tudo o que você precisa saber sobre a semifinal da Sul-Americana


Clubes começam decisão por uma vaga na final do torneio continental nesta quarta-feira, a partir das 21h45, na Arena da Baixada, em Curitiba

Atlético-PR e Fluminense começam a decidir, nesta quarta-feira, na Arena da Baixada, quem garante uma vaga na final da Copa Sul-Americana. O primeiro duelo das semifinais do torneio continental está marcado para as 21h45 (horário de Brasília), em Curitiba. Santa Fe e Junior Barranquila, ambos da Colômbia, fazem a outra semifinal.

Para chegar à fase atual, o Atlético-PR eliminou eliminou o Newell’s Old Boys, Peñarol, Caracas e Bahia. O Flu passou por Nacional Potosí, Defensor, Deportivo Cuenca e Nacional-URU. Furacão e Tricolor são donos das melhores campanhas da Sul-Americana, com seis vitórias cada.

Transmissão: o SporTV transmite ao vivo. O GloboEsporte.com acompanha em Tempo Real a partir das 18h.

Atlético-PR – técnico: Tiago Nunes

O Atlético-PR não deve contar com o zagueiro Paulo André, poupado do último treinamento, com dores no pé. Se for vetado, a dupla titular do técnico Tiago Nunes seria formada por Thiago Heleno e Léo Pereira. O restante do time deve ser o mesmo que eliminou o Bahia nas quartas de final. Com isso, o provável Furacão tem Santos; Jonathan, Thiago Heleno (Paulo André), Léo Pereira e Renan Lodi; Wellington, Lucho González e Raphael Veiga; Nikão, Marcelo Cirino e Pablo.

Quem está fora: meia-atacante Bruno Nazário (machucado).

Pendurados: Ninguém.

Provável Atlético-PR contra o Fluminense — Foto: GloboEsporte.com

Fluminense - técnico: Marcelo Oliveira

Após ser poupado contra o Vasco, Gum viajou com a equipe para Curitiba e a tendência é que comece jogando. O zagueiro machucou o joelho e o tornozelo direitos no jogo de ida contra o Nacional, há duas semanas, e jogou a partida de volta no sacrifício. Nesta terça, ele participou da atividade de campo com os demais jogadores, aplicou bolsa de gelo na perna, mas não deve desfalcar o time. De volta no clássico após quatro jogos fora, o lateral-direito Léo, recuperado de edema na coxa, também deve iniciar a partida.

Quem está fora: Dodi (entorse no tornozelo), Gilberto (edema ósseo no joelho direito), Pablo Dyego (pubalgia), Igor Julião, Marcos Felipe, Frazan e Dudu (não viajaram).

Pendurado: Digão
Provável escalação do Fluminense contra o Atlético-PR — Foto: GloboEsporte.com

O árbitro Roddy Zambrano Olmedo apita a partida, auxiliado por Christian Lescano e Byron Romero. O quarto árbitro será Carlos Orbe, todos do Equador. O VAR será comandado por Mauro Vigliano, da Argentina.

G1.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Cruzeiro Esporte Clube, da cidade de Cruzeiro do Sul planeja entrar no futebol profissional


O município de Cruzeiro do Sul, a 648 km de Rio Branco, capital do Acre, pode ter mais um time no futebol profissional nos próximos anos. A diretoria do Cruzeiro Esporte Clube, equipe homônima ao clube mineiro atual bicampeão da Copa do Brasil, apresentou na última sexta-feira (26), o novo uniforme da agremiação e lançou o desafio de em até quatro anos ter a equipe disputando competições profissionais.

Esse é um projeto que começamos a desenvolver buscando uma possível federalização de nossa equipe. O Cruzeiro é uma equipe com grande torcida e Cruzeiro do Sul e merecia um projeto como esse. Nós sentamos, estudamos, buscamos avaliar a melhor situação para poder chegar ao dia de hoje. Montamos um projeto sério, apresentamos a sociedade para buscar apoio para esse tipo de aspiração que é fundamental para esse tipo de projeto. Apresentamos um material de primeira linha, usada por grandes clubes do futebol brasileiro, pautando um projeto futuro de federalizar a equipe e chegar a disputa da segunda divisão estadual – explicou o diretor executivo Carlos Henrique.

O Cruzeiro de Cruzeiro do Sul foi fundando em 24 de junho de 1964 por um grupo de desportistas liderados pelo fotógrafo José Laureano de Oliveira. Vivendo altos e baixos no futebol amador acreano, viveu no anonimato na década de 90, mas conseguiu se reerguer na década seguinte, retornando à elite do futebol municipal sob a administração da atual diretoria.

O clube é comandado pelo líder comunitário Sérgio Rodrigues, que assumiu a direção em 2014, quando o clube existia apenas no estatuto. Desde então, parcerias e apoio foram buscadas para um recomeço.

Carlos Henrique destaca que a busca pela profissionalização está sendo promovida com cautela e o primeiro passo é busca alternativas para viabilizar o projeto.

"Todo projeto precisa de uma visão objetiva e meta. Nossa meta é entre dois e quatro anos alcançarmos esse objetivo. Quando se trabalha com seriedade a gente consegue apoio dos empresários. Isso já está claro para nós. Sabemos que para ter uma equipe no futebol profissional, dependemos do apoio de empresários para as despesas de deslocamento, estadia, alimentação e contratação de jogadores. É um processo que depende de apoio financeiro. Essa agora será nossa meta, buscar apoio para viabilizar esse projeto" - declarou.

O presidente do clube confia que o trabalho está no caminho centro e cita as conquistas recentes do clube como exemplo.

"Conquistamos os campeonatos municipais de 2015 e 2016, vencemos a Copa Idelfonço Cordeiro de 2017. Nossa base foi campeã em 2016 e vice em 2017. Temos trabalhado para que a cada dia a equipe cresça mais. Neste processo, estamos trabalhando, preparando o terreno, semeando sementes, nos organizando e buscando parcerias para que possamos chegar à 2ª divisão do estadual. Temos uma diretoria formada e organizada, que está trabalhando a parte jurídica. Acho que é questão de tempo para chegarmos a disputa da primeira competição estadual – destacou Sérgio Rodrigues.

Coincidentemente, além do nome, o Cruzeiro do Acre tem o uniforme semelhante ao ‘primo rico’ de Belo Horizonte. De acordo com o presidente do clube celesta do interior acreano, entretanto, trata-se apenas de um ‘acaso’.

No estatuto conta como as cores oficiais o azul e branco. O escudo é referência à constelação de Cruzeiro do Sul. A semelhança com o Cruzeiro de Minas é por acaso – explicou.

A diretoria do Cruzeiro-AC já fez contato com o presidente da Federação Acreana de Futebol (FFAC), Antônio Aquino Lopes, para conversar sobre a federalização do clube. Nos próximos dias, a entidade deve enviar à diretoria da equipe a lista de documentos que devem ser apresentados para filiação na entidade.

FONTE: globoesporte.globo.com/ac

PORTO WALTER: Semifinais do Campeonato Portowaltense de Futebol da 1ª Divisão acontecem neste fim de semana

Acontecerão neste fim de semana no estádio Wagner Gonçalves Borges no município de Porto Walter, as semifinais do Campeonato Portowaltense de Futebol da 1ª Divisão – temporada 2018.

A primeira semifinal acontecerá neste sábado (10/11) as 15:30 horas, se enfrentam Amantes do Esporte X Vasco da Gama.

A outra semifinal acontecerá no domingo (11/11) as 15:30 horas, entre as equipes, Juruá Esporte Clube X Inter do Juruá

Segundo Aldefran Dias, coordenador municipal de Esportes, a grande final acontecerá no dia 17/11 com a seguinte programação:

As 13:30 horas – Final do Campeonato da 2ª Divisão, entre Floresta X Cruzeiro do Vale.

As 15:30 horas – Final do Campeonato da 1ª Divisão, entre os vencedores das semifinais.

Ressaltando que as semifinais e finais terá a transmissão para a rádio Ocidental FM 90,1 pela equipe de narradores e comentaristas do município.

Blog do Orleido.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

PARABÉNS GRANDE AMIGO PROFESSOR ACCIOLY...


Feliz aniversário, meu grande amigo! Você é um homem admirável e merece toda a felicidade desse mundo. Sua vida é um presente para aqueles que têm a sorte de desfrutar de sua amizade e companheirismo, afinal não são todos os dias que nos reservam encontros com gente como você, simples, sincera e do bem.

sábado, 3 de novembro de 2018

É NESTE DOMINGO(4), FEIJOADA DO ONOFRE NO SINTEAC.


Horário de verão começa à 0h de domingo; 10 estados e DF devem adiantar relógio em 1 hora

Ajuste deve ser feito por moradores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e vale até 17 de fevereiro de 2019.

O horário de verão de 2018 começa na primeira hora deste domingo (4). À meia-noite, os moradores de 10 estados e do Distrito Federal devem adiantar o relógio em uma hora.

O ajuste vale para as regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal) e irá vigorar até o terceiro domingo de fevereiro de 2019 (dia 17).
Horário de verão começa neste final de semana — Foto: Karina Almeida/G1

Neste ano, o horário de verão foi encurtado. Até o ano passado, o horário de verão se iniciava no terceiro domingo do mês de outubro. Em dezembro de 2017, o presidente Michel Temer assinou decreto que encurtou o período de duração do horário de verão, atendendo a pedido do Tribunal Superior Eleitoral, para que o início do horário de verão não ocorresse entre o primeiro e o segundo turno da eleição.


O Palácio do Planalto chegou a informar no início do mês que, a pedido do Ministério da Educação, a entrada em vigor do horário seria adiada para dia 18 de novembro, a fim de não prejudicar provas do Enem, mas acabou decidindo manter a data de 4 de novembro.

Relógios fora de hora

As mudanças na data de início do horário de verão chegaram a causar confusão. No dia 15 de outubro, usuários de telefone celular reclamaram da mudança automática do horário em seus aparelhos para o horário de verão. No Twitter, muitos consumidores reclamaram ter perdido uma hora de sono em pleno retorno de feriado e cobraram explicações da TIM. A maioria relatou ter um iPhone, mas também houve queixas de donos de aparelhos com sistema Android.

Na semana seguinte, mais clientes de operadoras de celular passaram pela mesma situação, em que os relógios de seus aparelhos foram adiantados de forma automática para o horário de verão. Em São Paulo, alguns relógios de rua também foram adiantados e mostravam horário de verão na manhã do domingo (21).

Fim do horário de verão

O fim do horário de verão chegou a ser analisado pelo governo.

Um estudo do Ministério de Minas Energia apontou queda na efetividade da iniciativa, já que o perfil do consumo de eletricidade não estava mais ligado diretamente ao horário, mas sim à temperatura. Os picos de consumo foram registrados nas horas mais quentes do dia.

O Horário Brasileiro de Verão foi instituído pelo então presidente Getúlio Vargas, pela primeira vez, entre 3 de outubro de 1931 até 31 de março de 1932. Sua adoção foi posteriormente revogada em 1933, tendo sido sucedida por períodos de alternância entre sua aplicação ou não, e também por alterações entre os Estados e as regiões que o adotaram ao longo do tempo.

De acordo com o decreto nº 6.558, de 08 de setembro de 2008, modificado pelo decreto nº 9.242, de 15 de dezembro de 2017, a hora de verão fica instituída no Brasil da seguinte forma:

“Fica instituída a hora de verão, a partir de zero do primeiro domingo do mês de novembro de cada ano, até zero hora do terceiro domingo do mês de fevereiro do ano subsequente, em parte do território nacional, adiantada em sessenta minutos em relação à hora legal. No ano em que houver coincidência entre o domingo previsto para o término da hora de verão e o domingo de carnaval, o encerramento da hora de verão dar-se-á no domingo seguinte. A hora de verão vigorará nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal”.

O horário de verão também é adotado em países como Canadá, Austrália, Groelândia, México, Nova Zelândia, Chile, Paraguai e Uruguai. Por outro lado, Rússia, China e Japão, por exemplo, não implementam esta medida.

O Ministério de Minas e Energia disponibiliza um perguntas e respostas sobre o horário de verão.

Os vestígios brasileiros no suicídio coletivo mais famoso da história

O reverendo Jim Jones, comandante da seita Templo do Povo — Foto: Wikimedia Commons

No início dos anos 60, o reverendo Jim Jones morou em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro; no final da década seguinte, levou mais de 900 seguidores à morte na Guiana.

A notícia chegou ao Brasil há 40 anos, numa terça-feira, 21 de novembro de 1978. Três dias antes, 918 pessoas, incluindo 304 crianças e adolescentes, haviam morrido em Jonestown, assentamento agrícola erguido no coração da selva guianense por integrantes da seita americana Templo do Povo.

Entre pequenas casas de madeira, os fiéis jaziam de bruços sobre a grama, abatidos pela ingestão de refresco envenenado. O líder e fundador do grupo, Jim Jones, foi encontrado junto aos discípulos, com um ferimento de bala na cabeça. O clima tropical acelerou a decomposição dos corpos, obrigando os soldados da força-tarefa do governo local a vestirem máscaras para enfrentar o mau cheiro que impregnava o ambiente. Apenas 87 moradores da comunidade sobreviveram à tragédia, híbrido de suicídio coletivo com assassinato em massa.

A perplexidade dos brasileiros, no entanto, passava por questões anteriores ao massacre: uma década e meia antes, Jones havia morado no Brasil. Sua passagem por três capitais da região Sudeste, no auge da Guerra Fria, é parte de um quebra-cabeças cujas peças estão nos arquivos públicos do país, em antigas coleções de jornais e no acervo documental da própria seita, digitalizado pela Universidade Estadual de San Diego (na Califórnia, EUA).

A reportagem da BBC News Brasil entrou em contato com sobreviventes do grupo, mas nenhum deles quis dar entrevista. Por e-mail, Stephan Jones, único filho biológico do líder religioso, disse: "Eu me lembro apenas de pequenos fragmentos de nossa vida familiar no Brasil, e o papai não aparece em nenhum deles".

Apocalipse

No início da década de 1960, o Templo do Povo era um sucesso. Com poucos anos de existência, a congregação em Indianápolis (EUA) já aglutinava cerca de 2 mil fiéis, seduzidos por um discurso que fundia o cristianismo pentecostal aos princípios socialistas e a luta contra o racismo. Jones, que estivera em Havana nos primeiros meses de 1960, gabava-se de ter conhecido Fidel Castro e atribuía a Jesus Cristo o papel de fundador do comunismo. Ao lado da mulher, Marceline Jones, assumiu a custódia de três crianças coreanas, uma garota indígena e um bebê negro - o primeiro a ser adotado por um casal branco no Estado americano da Indiana.

A ascensão da igreja, porém, estava ameaçada pelas visões premonitórias que Jones alegava sofrer. O futuro da espécie humana e as trágicas consequências do individualismo ocidental teriam sido revelados a ele num átimo de segundo: clarões luminosos, nuvens em forma de cogumelo, explosões em Chicago, um confronto armado entre EUA e Rússia, devastação infinita.

Em 1962, ao folhear a edição de janeiro da revista Esquire, o reverendo encontrou um texto que parecia confirmar seus pesadelos. "Se você deseja estar a salvo da destruição atômica", anunciava o primeiro parágrafo, "aqui está o guia de sobrevivência mais atualizado". O artigo, intitulado Nine places to hide (Nove lugares para se esconder), enumerava e descrevia os "poucos lugares nesta terra onde a vida humana não será dizimada".

Belo Horizonte ocupava a sexta posição do ranking. Os encantos da capital mineira, segundo a Esquire, não eram de se desprezar: televisão, indústrias, laticínios, as amenidades da vida moderna e um clima agradável para americanos.

O reverendo tinha certeza: tratava-se de outro sinal divino.

Espionagem

Jim Jones desembarcou no aeroporto de Viracopos, em Campinas, no interior de São Paulo, no dia 11 de abril de 1962, acompanhado da mulher e dos filhos.

Os registros da família na Secretaria da Segurança Pública de São Paulo não eram muito esclarecedores. Aos funcionários da Delegacia de Estrangeiros, Jones informou apenas o nome, a data de nascimento, a nacionalidade americana e o local onde dormiria naquela noite - o Jaraguá, hotel de luxo no centro da capital paulista.

Na mesma semana, a família chegou a Belo Horizonte, fixando residência em Santo Antônio, bairro nobre da capital mineira. A enfermeira Rheaviana Beam, discípula do Templo, se juntou ao reverendo na primeira quinzena de julho, trazendo consigo o marido, Jack, e a filha, Joyce.

Aos olhos da vizinhança, os hábitos de Jones pareciam estranhos e misteriosos. Sempre calmo, ele não fumava nem bebia, nunca falava sobre religião e se esquivava quando interrogado sobre os motivos de sua vinda ao país. Todos os dias, às seis da manhã, saía de casa com uma pasta de couro, retornando apenas às sete da noite. Ninguém sabia o destino de suas caminhadas.

"Comecei a ficar grilado, desconfiava que fosse um espião. A única informação que consegui obter era a de que ele recebia mensalmente uma verba do governo americano, como capitão reformado da Marinha", relatou ao Jornal do Brasil o engenheiro aposentado Sebastião Carlos Rocha, em reportagem publicada em 24 de novembro de 1978.
O registro de Jim Jones ao chegar em São Paulo: ele apenas pernoitou no hotel Jaraguá (que existe até hoje) com a família — Foto: Arquivo Público de SP

No mesmo dia, Marco Aurélio Rocha, filho de Sebastião Carlos, assegurou aos repórteres do jornal O Globo que Jones recebia visitas quase diárias do Consulado Americano, que carros oficiais eram utilizados para abastecer de compras a sua residência e que um policial morrera ao investigar o caso. Em seguida, o reverendo teria abandonado a cidade.

Filantropia

Em fevereiro de 1963, Jones mudou-se para o Rio de Janeiro, instalando-se com a família num apartamento da rua Senador Vergueiro, no Flamengo, zona sul da cidade. Sua estadia na capital fluminense inspirou uma anedota que seria reprisada à exaustão nos sermões do Templo.

"Nos morros do Rio de Janeiro, eu me tornei um comunista", relatou aos discípulos em 1977. "Eu abastecia dois orfanatos, providenciava comida e mantimentos. Os brasileiros não tinham recursos para isso".

Os esforços de Jones teriam chamado a atenção de uma mulher rica e influente, jamais identificada: a esposa de um embaixador. "Ela deu em cima de mim, e nós tínhamos todas aquelas crianças para alimentar", afirmou. "Então a mulher do embaixador me ofereceu um monte de dinheiro para transar com ela, e eu aceitei".

A experiência, garantiu aos fiéis, foi difícil: "Nada é tão repulsivo quanto ir para a cama com alguém que você detesta. E eu detestava tudo o que ela representava: a arrogância, o racismo, a crueldade dos ricos. Eu vomitei logo em seguida".

Com o pagamento de US$ 5 mil, o reverendo teria financiado obras de caridade nos orfanatos. "Mas eu fiz com que aquela p*** velha me acompanhasse, para que ela conhecesse o outro lado da vida", disse. "E quando todas aquelas crianças negras puxaram seu vestido em agradecimento, ela se afastou".

Golpe

Jim Jones não foi o único cidadão de Indiana a migrar para o Brasil naqueles tempos. Dan Mitrione, chefe de polícia no município de Richmond, agente do FBI (a polícia federal dos EUA) e ex-amigo do reverendo, chegou a Belo Horizonte em 1960. Era, nas palavras do líder religioso, "um sujeito cruel, um racista perverso".

Mitrione lecionou "técnicas de contrainsurgência" em escolas policiais de todo o país. Suas aulas, na verdade, eram grandes laboratórios de tortura, abordada de forma didática e com ares de método científico. Supervisionados por ele, os alunos submetiam mendigos e presos políticos a choques elétricos, pau-de-arara e asfixia.

"Já tinha ouvido falar de suas atividades nefastas em Belo Horizonte. Estava inclinado a denunciá-lo para toda a esquerda", declarou Jones.

O agente permaneceu quase três anos na capital mineira e sua mudança para o Rio de Janeiro, em 1963, coincidiu com a de Jones. Antes de ser morto por guerrilheiros uruguaios, Mitrione ainda ministraria cursos no Rio Grande do Sul, em 1964, e Pernambuco, em 1965.
Daniel "Dan" Mitrione, do FBI, veio ao Brasil para dar aulas de tortura a agentes da ditadura militar (1964-1985) — Foto: Biblioteca Nacional/BBC

Impressionado com a escalada de violência que culminaria no golpe de 1964, Jones acabou retornando aos EUA em dezembro de 1963. "Naquela época, o Brasil parecia caminhar para uma social-democracia", avaliou. "João Goulart era progressista, mas eu sabia que alguma coisa estava prestes a acontecer, pois Jânio Quadros, uma espécie de herói popular, havia renunciado sem aviso prévio."

As conclusões do reverendo acusavam seu próprio país: "Os brasileiros tiveram que ser treinados de fora, pelos EUA, para se tornarem tão brutais. Foi algo obviamente importado".

Jonestown

Em 1965, o Templo do Povo saiu de Indiana e instalou-se no Estado da Califórnia, ampliando consideravelmente sua influência. Dez anos depois, a seita tinha três filiais e cerca de 20 mil simpatizantes, incluindo George Moscone, prefeito de San Francisco, e Rosalynn Carter, que viraria primeira-dama dos EUA.

Também nesse período, surgiram os primeiros dissidentes. Negros acusavam o Templo de conceder privilégios hierárquicos aos adeptos brancos, e militantes de esquerda questionavam o real comprometimento do grupo com a causa socialista. Aos descontentamentos, somavam-se as denúncias de enriquecimento ilícito, assédio sexual, abuso psicológico e charlatanismo. Jones, por sua vez, desmoralizava os críticos e buscava novas formas de isolar os fiéis.

Em 1974, o reverendo travou uma série de negociações com as autoridades da Guiana. Tendo uma população majoritariamente negra, o inglês como língua oficial e um governo simpático ao socialismo, o país sul-americano despontava como o cenário perfeito para uma fuga do escrutínio que se delineava nos EUA.

Em junho daquele ano, membros da seita entraram na selva guianense e iniciaram a construção do Projeto Agrícola do Templo do Povo, mais conhecido como Jonestown. A empreitada deu origem a um boato: para escapar do governo americano, Jones estaria planejando um retorno ao Brasil.

Num sermão gravado em outubro de 1974, o reverendo, bastante irritado, respondeu às acusações: "Se estivéssemos fugindo, nós jamais iríamos ao Brasil, aquela ditadura militar fascista. Mas as pessoas não enxergam nem um palmo adiante, o que esperar desses imbecis?".

Nos anos seguintes, Jones dividiria sua rotina entre estadias na Guiana e excursões proselitistas aos EUA. No dia 7 de fevereiro de 1977, discursando em uma igreja lotada na Filadélfia, explicou à plateia os supostos objetivos de Jonestown: permitir aos fiéis que se refugiassem da guerra nuclear e das ditaduras. "Nós temos um Hitler no Brasil", opinou. "Um Hitler comandando o Brasil agora mesmo, o general Ernesto Geisel".

Cinco meses depois, o reverendo se mudou para a Guiana em caráter definitivo. Quase mil fiéis o acompanharam.

Paranoia

Embora o Templo do Povo anunciasse Jonestown como um paraíso terrestre, na prática o assentamento lembrava um campo de concentração.

Trabalho escravo, cárcere privado, racionamento de comida e sessões de tortura marcavam o dia a dia da comunidade. Moradores que desobedecessem às ordens de Jones eram submetidos a espancamentos, estupros corretivos e suturas sem anestesia. Às vezes, eram dopados à força e trancados numa caixa subterrânea, onde perdiam os sentidos.

Em muitas ocasiões, os fiéis também tinham que passar as noites em claro, discutindo intrigas da seita ou escutando pregações do reverendo. Nessas madrugadas insones, tomadas por um constante estado de alerta, as menções ao Brasil eram recorrentes, de acordo com os arquivos do grupo.

No dia 20 de maio de 1978, Jones discorreu brevemente sobre a atuação de guerrilheiros no Nordeste brasileiro. Três meses depois, em 25 de agosto, proferiu um longo discurso sobre as eleições que empossariam, por voto indireto, o general João Figueiredo, o último presidente da ditadura militar brasileira. No dia 9 de setembro, durante uma explanação sobre a história do fascismo, citou Plínio Salgado e o movimento integralista. Em 31 de outubro, saudou as greves operárias que tomavam o ABC paulista.

Mas o medo do mundo externo se sobrepunha a todos os outros temas. Afundado em drogas e cada vez mais paranoico, o reverendo atravessou o ano de 1978 atormentado por uma ideia fixa: Jonestown estaria prestes a ser destruída por mercenários da extrema-direita americana. A única alternativa ao destino humilhante e doloroso que se abateria sobre o Templo do Povo estava, segundo o líder, na prática do "suicídio revolucionário".

Em 16 de fevereiro, um morador sugeriu que a comunidade deixasse a Guiana e tentasse uma fuga pela fronteira com o Brasil (o país sul-americano é fronteiriço aos Estados do Pará e de Roraima). Para Jones, a ideia não fazia sentido. "São cinco mil milhas na selva. Nós teremos que andar, andar, andar. Teremos que aprender com os índios, negociar e fazer amizade com eles, dividir o pouco que temos e permanecer longe do governo", retrucou. "Vocês precisam ter os pés no chão."

Massacre

As profecias do reverendo pareciam ter se concretizado quando Leo Ryan, deputado federal pelo Partido Democrata da Califórnia, anunciou uma visita à Guiana. Políticos, repórteres e ex-fiéis se uniram ao congressista numa comitiva destinada a checar o que se passava em Jonestown.

O grupo chegou ao assentamento agrícola numa sexta-feira, 17 de novembro, e foi recebido com uma festa de boas-vindas. Ryan, emocionado, disse ao microfone: "Ao conversar com vocês, percebi que esse lugar foi a melhor coisa que já aconteceu em suas vidas".

O veredicto foi calorosamente aplaudido. A comitiva, entretanto, logo percebeu que o clima de alegria era falso: na tarde de sábado, 16 moradores pediram a Ryan que os levasse de volta para os EUA.

Hostilizados pelo reverendo, os forasteiros e dissidentes partiram rumo à pista aérea de Port Kaituma, pequena vila a 10 quilômetros de Jonestown. Antes de embarcarem no avião que os aguardava, foram atingidos por uma rajada de balas.


Além do deputado Ryan, mais quatro pessoas morreram na emboscada: Don Harris, correspondente da NBC; Robert Brown, cinegrafista da mesma emissora; Greg Robinson, fotógrafo do San Francisco Examiner; e Patricia Parks, uma das moradoras que tentavam abandonar a comunidade.

Enquanto isso, no pavilhão central de Jonestown, o reverendo celebrava seu último culto. "Eles vão torturar nossas crianças aqui. Eles vão torturar nosso povo. Eles vão torturar nossos idosos", advertiu. E, dirigindo-se às enfermeiras da seita, disse: "Providenciem os medicamentos". Uma mistura de cianureto com refresco de uva foi distribuída aos fiéis.

Bebês, crianças e adolescentes morreram primeiro, envenenados pelos pais - Charles Garry Henderson, um recém-nascido de dois meses, foi a mais jovem vítima do massacre. Idosos perderam a vida logo depois, executados pelas enfermeiras - Amanda Poindexter, uma ex-empregada doméstica de 97 anos, foi a vítima mais velha. Em seguida, animais de estimação foram sacrificados. Os adultos sucumbiram por último, caminhando até o púlpito para ingerir a solução.

"Não se entreguem às lágrimas e à agonia", ordenou Jones aos seguidores, que choravam em pânico. "A morte é apenas uma viagem para outro plano. Estamos cometendo este ato de suicídio revolucionário em protesto contra um mundo desumano."

Quando o líder atirou contra a própria cabeça, já não havia mais nenhum discípulo vivo no local. A mulher do reverendo estava entre os mortos, assim como dois de seus filhos adotivos, Lew e Agnes Jones. O casal que se juntara à família em Belo Horizonte, Jack e Rheaviana Beam, também havia bebido do veneno.

A lista de falecidos incluía ainda Patty Cartmell, que coordenara as atividades do Templo durante a estadia de Jones no Brasil, e Maria Katsaris, que dias antes, numa conversa telefônica com o irmão, dissera ter visitado o país a serviço da seita. Aproximadamente 70% dos mortos eram negros.

Em meio aos cadáveres, investigadores do FBI encontrariam pelo menos três notas de suicídio. A mais conhecida delas, anônima, continha um apelo: "Reúnam todas as fitas, todos os escritos. A história deste movimento deve ser examinada com cuidado e compreendida em todas as suas incríveis dimensões". E finalizava: "As trevas caem sobre Jonestown em seu último dia na Terra".

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

"A MORTE É UM ABUTRE QUE SE TRANSFORMA EM ÁGUIA "- POR MOISÉS DINIZ.


Quando você vive a morte na sua carne e na sua mente, quando ela ataca a tua alma como lobos famintos, o que nos sobra de vida, depois, a gente trata como eternidade.

Este testemunho doloroso, da minha experiência de quase morte, que eu ofereço aos meus amigos, no dia dos mortos, para que eles passem a olhar pra vida como milagre de Deus.

A MORTE É QUASE INSUPORTÁVEL, MAS, É UMA PORTA PARA SENTIMENTOS ETERNOS

Descrever a morte pode parecer algo fácil, tendo à disposição um lápis ou um teclado de computador. Na verdade, este testemunho foi escrito na tela miúda do meu iPhone, enquanto eu me recuperava no leito do hospital. Muitas das angústias que senti e muitas das visões que tive ficaram perdidas no pen-drive da minha mente. Escrevi o que a minha memória permitiu, como se a robustez das pedras se transformassem em nuvens, porque o que se sente quando estamos morrendo incomoda mais do que sal numa ferida, dói mais do que lavas incandescentes penetrando nosso corpo.

Não há nada mais doloroso do que você sentir que está morrendo e não poder falar, nem mover sua mão para fazer um sinal, pedir água, que é o que mais queremos (em termos físicos) quando estamos desfalecendo, dizer a quem está ao lado da maca, que queria minhas filhas ao meu lado, que queria receber um abraço de quem me ama, dizer que faria qualquer coisa para não morrer naquele instante, que, se eu não morresse naquela hora, faria de tudo pra viver diferente, que jogaria no lixo qualquer forma de desamor, que lutaria para que ninguém passasse pelo que passei, que guardaria tempo para as coisas do coração, para o que é sagrado e belo.

EU NÃO VI A MORTE CHEGANDO

Na última segunda-feira (7/05/2018), eu vivi uma experiência de quase morte. Os especialistas devem dar outros nomes, mais sofisticados, outros podem achar que foi alucinação. Mas, eu ‘vivi’ (se é esse o termo) um momento tão intenso com a morte, que foi como se fosse uma batalha eterna, entre anjos e demônios, que disputavam meu corpo e minha mente.

Hoje, depois de todo o sofrimento silencioso que passei, tenho absoluta certeza de que Deus estava dentro da minha mente, como um universo de fogo a aquecer o frio da morte que tomava conta do meu corpo.

Na quinta-feira (3/05), eu peguei a estrada para Feijó (350 km de Rio Branco), para ser apresentado à equipe do Depasa de lá (órgão de saneamento que eu acabara de assumir a presidência). Na saída de Sena Madureira (140 km de Rio Branco), comecei a sentir uma tontura muito forte. Mas, outros fatores me levaram a não entender aquela tontura: um temporal violento nos pegou na estrada e a minha coluna doía de forma quase insuportável. A tempestade e a dor na coluna desviaram a minha atenção. Após a reunião lá, comi um açaí. Aí a minha tontura aumentou. Como eu estava há quatro meses que não media meu colesterol, achei que era ele o culpado. Então, comprei um remédio e tomei.

Na verdade, tinha um fator a mais, a tirar a minha atenção. Eu também estava passando por uma crise fortíssima de hemorroida. Não falei, no texto original, por puro machismo e a ‘vergonha’ que este sentimento velho cria em nós. Eu havia, há dois meses, feito uma pequena cirurgia, mas, a crise continuava braba, dolorida e incômoda. Isso tirou muito a minha atenção da tontura. Quando temos várias dores no corpo, a gente acaba sentindo e dando atenção para aquelas que mais doem.

Dor na coluna, quase insuportável (eu havia tomado um comprimido de Tramal, próximo à ponte de Manoel Urbano, sobre o rio Purus), crise forte de hemorroida (com seis horas viajando de carro, numa estrada com trechos esburacados) e tontura forte. Às vezes, nós, seres humanos, vivemos pior do que os bichos. E, quando nos damos conta, já é tarde demais.

Ocultar uma doença, como fiz no relato original, em relação à hemorroida, é a prova de que, nós homens, somos ‘máquinas caminhando pro abismo’, orgulhosos pra não falar de nossas dores, quase não fazemos exames médicos (só fazemos quando chegamos no limite), não choramos (o choro é como uma chuva de bálsamos, alivia, descarrega, deixa leve), não calçamos as sandálias da humildade, que nos tira a obrigação machista de resolver tudo, de ter poder pra tudo e ver no dinheiro um tecido que compra inutilidades, quando devia servir apenas para cobrir as nossas necessidades.

No dia seguinte, em Tarauacá (400 km de Rio Branco), a tontura persistiu e se agravou. Eu segui participando de reuniões, sempre com a mesma tontura. No domingo, participei de nova reunião em Rio Branco, densa e complexa. E a tontura se tornava cada vez mais intensa. Eu quase não conseguia mais raciocinar. Não compreendo como não percebi que havia algo anormal. Foram cinco dias de tontura e eu não medi nenhuma vez a minha pressão arterial.

Já no leito da UTI, sozinho, fiquei imaginando como a gente não consegue perceber a dor das pessoas. Como a humanidade seria melhor e mais saudável, se tivéssemos como regra, perguntar como as pessoas estão. Eu estava, há cinco dias, abrindo as veias do meu coração e meus gânglios (meus enzimas deviam estar fervendo) para um infarto ou AVC e não percebia.

Na segunda-feira, a tontura continuou muito forte, mas, segui com agendas desde as 6:30 da manhã. À tarde, quando eu estava indo para uma agenda com o governador, para tratar demandas do saneamento, eu já estava sentindo dificuldades na respiração, sentindo frio e suando. Eu não conseguia sequer reagir aos cumprimentos dos assessores do gabinete governamental.

Quando percebi que se intensificava uma dor no peito, muita dificuldade em respirar e, mesmo sentindo frio, eu suava, então pedi ajuda. O SAMU foi acionado e fui levado ao Pronto-socorro. Do SAMU, passando pela Sala de Emergência e INTO, até a UTI do HUERB, eu fui tratado pelo SUS.

A MINHA EXPERIÊNCIA DE QUASE MORTE

Ali começou a minha experiência de quase morte, quando eu não conseguia falar ou fazer sinais físicos para que os médicos percebessem e me entendessem. Ouvia quando eles perguntavam a minha idade ou o mês em que estávamos. No começo, conseguia responder parcialmente. Depois, fui perdendo, rapidamente, a capacidade física de reagir aos estímulos. Ouvia quando eles perguntavam se eu era hipertenso, se eu era diabético, qual o remédio que eu tomava pra pressão arterial, se eu fumava.

Ouvi quando a enfermeira falou: “as veias dele fecharam, não tem como aplicar a injeção”. Percebi que, após a informação da enfermeira, nenhum procedimento médico foi feito, além de me introduzirem na máquina de tomografia. Então, compreendi que eles não tinham muita coisa a fazer, além de descobrir o que ocorrera dentro do meu corpo, especialmente na área cerebral. Naquela hora, fui formando uma convicção de que eu estava morrendo. Ouvia muito barulho na sala (soube, depois, que era a sala de emergência do PS), vi duas mulheres chorando, abraçadas, uma criança numa maca, sozinha, como se não tivesse pais, percebi muitos olhares curiosos para mim, como se eu fosse uma barata gigante numa sala de vidro, senti uma profunda solidão, apesar de ter ao lado médicos amigos e pessoas influentes, compreendi que eu havia permitido chegar àquela situação, que eu estava “morrendo de graça”, porque deixara “o meu corpo ao léu”, abandonará os mínimos cuidados que devia ter, como ser humano, sem contar que eu tinha condições de cuidar do meu corpo, eu não vivia nas ruas, eu não era um mendigo. Por isso, eu sentia uma revolta muito forte, quase sufocante, por ter deixado meu corpo chegar até ali, fragilizado, pressão descontrolada, veias fechadas, sem tato nos braços e nas pernas e sem conseguir falar.

Ali, eu vi o quanto são guerreiros aqueles profissionais. Foram agindo e me salvando, quase sem nenhuma informação médica sobre mim. Eles apertavam, com força, minhas pernas e meus braços, pra saber se eu estava sentindo. No início, eu reagia, mas, em seguida, eu não conseguia mais responder. Eu ouvia eles perguntando, mas, não sentia.

Lembro que eu ficava, na maca e no aparelho de tomografia, segurando os dois lados da minha calça (com os meus dedos), pra não permitir que meus braços descansassem no chão delas, porque eu achava que, se fizesse isso, eu estava me entregando. Ao resistir assim, até perder a sensibilidade, meus braços tremiam muito. Era quase insuportável, mas aguentei até onde deu.

Então, percebi que eles me colocaram numa máquina pra fazer algum tipo de exame, tipo uma tomografia. Não sei quanto tempo durou, mas, o que aconteceu comigo lá dentro, foi uma eternidade, a minha experiência de quase morte.

Quando a gente passa por uma situação de quase morte, o que se destaca não são as reações físicas, as dores ou a desconexão da sensibilidade dos teus órgãos, o que martiriza é a mente, os pensamentos que nos dominam. É como se a gente estivesse vivendo um pesadelo e não conseguisse acordar, como se estivéssemos sendo devorados pela falta de oxigênio no fundo do mar. O desespero é tão avassalador que a gente preferiria ser engolido por um tubarão do que viver aquela asfixia lenta, aquela falta de oxigênio com as mãos e as pernas paralisadas. Tua vida volta toda em poucos minutos. Talvez daqui a um milhão de anos a humanidade vá conseguir decifrar a nossa mente, porque é impressionante como conseguimos ver a nossa vida toda em alguns minutos, até acontecimentos que haviam sido deletados de nossa memória, como relâmpagos, voltam e vemos tudo, em detalhes. Há uma dor inominável de perceber que estamos morrendo e passamos a nos recriminar porque não resolvemos tudo que devia, por não ter amado mais, cuidado mais, por não ter abraçado as manhãs com mais otimismo e mais fé, por não ter vivido com mais liberdade, com mais sensibilidade, por não ter me orientado mais pelas minhas convicções, por ter permitido que qualquer lagarta devorasse as minhas rosas e qualquer cão invadisse e ainda ladrasse no meu jardim.

No aparelho de tomografia, percebi que a morte vem pela falta de sensibilidade dos meus órgãos, começando por um fenômeno terrível, que vai congelando a região do rosto da gente. Toda a minha região bucal ficou como se estivesse anestesiada, irradiando a dormência para o nariz, os olhos e a parte inferior dos ouvidos. Mas, eu ouvia longe os profissionais falando. Eu não sentia os meus pés e os meus braços. Era como se eles não existissem. Então, comecei a entender que estava morrendo e eu não podia fazer nada.

Minha mente estava intacta, mas, era como se meu corpo estivesse sendo consumido por uma máquina de anestesia, que triturava sem fazer barulho. Então, eu decidi organizar, na minha mente, a minha despedida. Mas, com uma revolta racional: eu não queria ir. Não aceitava morrer tão cedo. Vi meu velório e meus amigos. Eu ‘via’, nitidamente, todos eles, ao meu redor, o que diziam, seus semblantes. Foi terrível, uma dor que não se explica.

Apesar da revolta, entendi que era irreversível, que eu precisava fazer valer meus últimos pensamentos. Meu primeiro ato racional foi de perdão. Pedi perdão a todos que passaram pela minha vida e depois disse: ‘Deus, perdoa todos também! Que não aconteça nenhum mal a quem, por qualquer motivo, desde que eu nasci, me fez algum mal. Tudo isso é pequeno e insignificante, eu amo todos, meu amor é infinito agora! Cuida, também, da minha família!’ Senti uma paz imensa naquele instante.

Aí comecei a cantar, mentalmente, a canção que eu cantara quatro horas atrás, pra fazer minha neta Marina dormir: “uma dia uma criança me parou, olhou-me nos meus olhos a sorrir, caneta e papel na sua mão, tarefa escolar para cumprir, e perguntou no meio de um sorriso, o que é preciso para ser feliz? Amar como Jesus amou, sonhar como...”

Lembrei que, no final da manhã, Marina chegara da escola muito agitada, rebelde, inquieta, diferente de todos os outros dias. Foi com essa música que fiz a Marina dormir e voltei para o trabalho, as 15 horas. Naquele instante de quase morte, entendi que Marina estava prevendo algo, na sua inocência. Cantar aquela música, silenciosamente dentro da minha mente, naquele instante terrível, era como uma despedida carinhosa daquele pedacinho de gente que eu tanto amava.

Lembro ainda que, quando cheguei para almoçar, as 13:30 horas, disse para a minha mulher: “tem algo muito errado comigo. Ontem, domingo, tratei um assunto importante de trabalho com um de nossos dirigentes do Depasa, e hoje voltei a tratar. Eu, literalmente, esqueci hoje que já tinha tratado ontem. Acho que foi um sinal vermelho”. Só não sabia o que dizia o sinal.

ERA O PURGATÓRIO OU MINHA VIDA DE ANGÚSTIA?

Depois que cantei a música, uma porta gigantesca se abriu perante os olhos da minha mente: um abismo da cor do barro de um barranco do rio, como se fosse uma colossal planície entre montanhas silenciosas, que expeliam fumaça, com casas velhas sem telhado e sem portas. Figuras humanas se aproximavam e sussurravam palavras ininteligíveis pra mim, como se, desesperadamente, quisessem me avisar de algum perigo ou precisassem me ajudar. Vi que suas bocas e narizes eram apenas cicatrizes, e que havia um esforço imenso pra falar e respirar e não conseguiam. Seus olhos eram como dois ninhos de joão-de-barro, opacos e tristes, sem claridade, mas, havia um sinal distante de luz dentro deles, como aqueles pingos de canetas eletrônicas. Era como se passassem uma mensagem que havia alguma esperança, além da dor silenciosa, naquelas figuras mortas como o barro. Se aquela imagem fosse a do Purgatório, era algo comovente, assustador e esperançoso ao mesmo tempo.

UM SEGUNDO DE DEUS

Enquanto eu tentava entender aonde estava, uma tempestade de vento, como se fosse uma mão carinhosa e gigantesca, me arrastou para cima da montanha. Aí vi algo comovedor, uma mulher vestida de rosas. Não sei se era minha mãe ou era a Mãe de Jesus, só ouvi quando ela me disse: “meu filho”... Foi o instante em que senti vontade real de não voltar, de aceitar a morte como porta para aquele novo mundo, de abraçar aquela mulher e conhecer aquele mundo tão diferente, que pacificava a guerra que ainda ocorria na minha mente, como se fosse uma anestesia poderosa que, agora, desligava o meu cérebro, como última resistência da vida.

Não sei, também, se tudo foi apenas uma alucinação. Como poderia minha mente ‘ver’ tantas coisas e refletir sobre tantos cenários nunca vistos em tão pouco tempo? Lembrei que, quando sonhamos, principalmente quando é pesadelo, acreditamos que foram horas de sonho, mas, se comprova, depois, que foram apenas alguns segundos. O que sei é que senti e minha mente ‘viu’ todas essas situações fortes e sentimentais.

Então, ouvi outra voz, como se fosse um grito: “não desiste, Diniz! Luta!”

Foi quando percebi que estava sendo retirado do tubo da máquina de tomografia. Tentei sentir meu corpo e constatei que estava pior, braços e pernas sem tato nenhum e a região do rosto anestesiada. Tentei mexer minha mão, não conseguia, as penas, nada. Apenas conseguia abrir os olhos. Aí foi quando algo chamou minha atenção. Minha coluna doía e eu sentia calor, principalmente na região lombar. Nessa hora, eu decidi: vou lutar para que a dor que está na minha coluna vá para minhas pernas e meus braços, porque, naquela hora, dor era vida. Nesse instante pedi: “Deus, manda vida e dor para as minhas pernas e meus braços”! Fiz também um esforço tremendo para mover minhas bochechas, para comprimir a gengiva e os músculos do rosto, nada reagia, mas, continuei tentando.

Todo o esforço da minha mente era pedir vida a Deus para os meus órgãos que estavam falindo e repetir dezenas de vezes que eu não ia morrer. No leito da UTI, sozinho, fiquei horas pensando o que podemos fazer (sociedade, medicina e poder político) para ajudar pessoas em situações como a que eu vivi.

Percebi quando me colocaram numa maca e ouvia vozes distantes: “pode levar, ambulância, não tem mais o que fazer, grande amigo, não pode ser...” Nessa hora eu me desesperei e não conseguia reagir. Não era justo eu estar sendo levado para o necrotério, se eu ainda estava vivo.

Nunca senti tanta impotência e tanto desespero, perceber que estava morrendo e os meus amigos e profissionais que estavam ao redor já tinham feito o que era possível. Cada porta em que a maca batia, pra mim, já era a entrada do necrotério, mas, a pedra fria não aparecia. Meu pavor aumentava, porque comecei a imaginar a exumação, ainda vivo, pois eu sabia que meu cérebro estava vibrando e minha coluna doendo, apesar de não sentir o restante do corpo.

Naquela hora o meu desespero se tornou avassalador, foi ficando quase violento, surdo e mais intenso do que quando percebi que estava morrendo. Foi quando percebi que ainda estava vivo, mas, senti que estavam me tratando como morto ou quase morto, quando não vi mais nenhum procedimento médico pra me tirar daquela situação de insensibilidade dos meus órgãos. Era tanta a dor e tanto o medo na minha mente que prometi a mim mesmo que, se voltasse a viver, eu lutaria pela legalização da eutanásia (até isso pensei), porque não era justo alguém sofrer daquele jeito na hora da morte. Eram pensamentos confusos. Naquela hora passei a imaginar o que seria o Inferno. Se lá a dor da alma fosse igual a que eu estava sentindo, então, valeria qualquer sacrifício humano para evitar ir para os seus domínios.

Foi então que dois grandes sentimentos disputaram minha mente. O primeiro pedia que alguém me apagasse, que me dessem uma morfina, para estancar aquele sofrimento e não ser velado vivo, ou mesmo exumado e até sepultado. Foi horrível! Nessa hora, percebi o quanto a morte pode ser insuportável.

Queria tanto que alguém me ouvisse, que pudessem trazer rapidamente minha mulher e minhas filhas pra me abraçar. Nunca desejei tanto esse abraço, eu o queria mais que qualquer coisa. Eu sentia que não viveria mais, apenas queria um abraço. Lembro que eu suplicava, na minha mente, para que alguém baixasse a minha blusa (que havia sido levantada pra colocar os catéteres) e que tirassem do meu dedo aquele pequeno objeto que me incomodava tanto (oxímetro).

Então, a minha coluna voltou a doer mais fortemente e eu passei a lutar pela vida, com a convicção de que ainda podia viver. É algo que a gente não consegue expressar, é como se você estivesse caindo num abismo e apenas as asas de um beija-flor tentassem te sustentar. Naquele instante eu decidi que lutaria pela vida até a minha última gota de sangue, que era uma necessidade eu voltar, para dizer para as minhas filhas que a vida é mais preciosa que uma montanha de diamante, que todos nós devíamos mudar, que, se possível, até mexer na substância de nossas próprias almas, que nada valia mais que o oxigênio que a gente respirava todos os dias, sem pagar taxa nenhuma, que tudo passa, especialmente o que é feio perante a vida, mas, é eterno o que é belo do ponto de vista da espiritualidade, do amor, da solidariedade.

Eu rezei muito forte, com toda a vibração da minha mente, da minha alma e da minha coluna vertebral. Pedia força a Deus pra não aceitar morrer, não apagar, e mandava ordens para que a minha coluna vertebral, que pulsava de dor, liderasse minhas pernas e meus braços. Ali, compreendi que a dor era a minha porta de volta pra vida.

Mentalizei as várias cirurgias que fiz na boca e relembrei que a imagem de ficar tudo inchado era fictício, uma percepção enganosa da anestesia. Isso me deu ânimo, de que não havia sequelas na minha boca.

No meio dessa luta terrível entre a vida e a morte, ouvi a palavra INTO, aí compreendi que ainda estava no meio dos homens e que atravessava corredores e entrava numa ambulância. Acho que ali restabeleci a consciência parcial do meu corpo e passei a acreditar que a morte seria vencida, passei a falar e até raciocinar, como pedir que minha mulher me acompanhasse na ambulância.

Encerro esse relato terrível, mas, sentimental, considerando que, além do esforço e do carinho dos profissionais da saúde e da tecnologia, dois fatores externos também ajudaram a me salvar. Acredito que as minhas caminhadas e a minha dieta de açúcar foram importantes para que eu resistisse àquele vendaval da pressão arterial.

Todavia, acho que foi a área límbica (amorosa, elástica e aberta) do meu cérebro, que fez a principal resistência. Acho que amar as pessoas é a maior de todas as comportas contra essas tempestades que, a qualquer hora, atingem o nosso coração.

Num outro dia, eu escrevo sobre as pessoas que me ajudaram a vencer essa travessia e agradecer o carinho que veio de tanta gente.

CINCO DIAS DEPOIS

Quando um vendaval atinge uma casa e não a derruba, ela fica com rachaduras, telhas fora do lugar, animais assustados, os pássaros voam pra longe, móveis quebrados e, quem primeiro sofre a devastação, é o jardim e suas flores, as rosas, os jasmins. Aí, um vendaval menor pode voltar e destruí-la. Foi o que aconteceu comigo. Mas, o medo que me domina, hoje, sofre antídoto diário e permanente: primeiro, Deus e, por último, a minha mente.

NÃO MORREMOS NA UTI

Não consegui esquecer uma cena: vizinho a mim, na UTI, um velhinho estava entubado. Nos três dias em que fiquei lá, não vi ele mexer uma mão sequer. Eu ficava olhando, perplexo. E um único vivente não veio visitar aquele senhor. Então, eu aprendi, dolorosamente, que quem estava morrendo, não eram as pessoas que sofriam na UTI. Quem morria por dentro, todos os dias, eram os parentes e amigos que não iam visitar aquele velhinho.

Eu tenho plena convicção de que Deus parou a minha morte no meio do caminho, porque eu acredito que a eternidade está dentro da gente, num lugar especial da nossa mente. Creio que Deus é uma energia poderosa e amorosa, que habita a mente física dos seres humanos. E, quando você pede cura, Ele te dá. É só combinar com o nosso coração o jeito de pedir.

OS TRÊS MILAGRES

Quando eu entrei na sala de emergência do hospital, além do grave problema de pressão arterial, eu tinha dois outros problemas. Como já testemunhei, eu vivi um milagre: Deus me deu uma nova chance de vida.

Todavia, dois outros milagres aconteceram, que só agora decidi falar, porque eram quase inacreditáveis.

DOR NA COLUNA

Há dez meses que eu não sabia mais o que fazer, era tanta a dor, que eu cheguei a ter vontade de morrer. Minha coluna doía de forma insuportável, enquanto eu não me dopava.

Eu já tinha feito ressonância magnética duas vezes e me consultado com os melhores ortopedistas. Fiz RPG, fisioterapia e caminhadas. Aliviava, mas, a dor sempre voltava.

Tomar setenta gotas de Dipirona era como beber água. Nenhum analgésico aliviava a dor. Eu já estava usando Tramal, que também já não funcionava mais. Sentir dor permanente é algo que te desespera, mas, você faz tudo pra esconder dos amigos e da família, para que eles não sofram com você.

Eu usava remédio pra dormir: Rivotril ou Stylnox, às vezes, os dois juntos. Era a forma de me anestesiar, assim eu dormia e aquietava a dor.

Eu ficava contando as horas pra chegar a hora do almoço: aí eu tomava um comprimido de Stylnox, que me deixava meio que dormindo por uma hora e aliviava a dor. No dia que eu não podia fazer isso, era um sofrimento só. Nem minha mulher sabia que eu tomava esse remédio durante o dia.

A noite, eu tomava dois comprimidos ou doses pesadas de Rivotril. Viver assim, sentindo dor permanente, pegando um avião pra Brasília toda semana ida e volta, seis horas de voo sentado, participar de reuniões, audiências, sessões que iam até as 23 horas, sem família para almoçar e jantar comigo, rir para as câmaras de tv, disfarçar a dor, durante dez meses, não pode ter Purgatório pior.

HEMORROIDA

Na mesma data, comecei a sofrer uma crise de hemorroida. Foram dez meses de sofrimento. Usava todo tipo de remédio, caseiro, anti-inflamatórios, e fiz até uma pequena cirurgia, que não surtiu efeito.

O mesmo sofrimento da dor na coluna, dobrava com a hemorroida, viagens longas de avião, estradas esburacadas, reuniões cansativas. Tinha horas que eu pensava que Deus havia me abandonado ou estava testando a minha fé. Quando eu entrei naquele hospital, meu corpo estava muito sofrido e a minha fé abalada.

OS DOIS MILAGRES

Hoje, depois que Deus me livrou da morte, a minha hemorroida não me incomoda mais e a minha dor na coluna diminuiu 80%.

Se isso não foi milagre, o que foi então?

QUANDO UM MILAGRE MORRE A DOR QUE FICA É PROFUNDA

Exatamente vinte e cinco dias depois que saí da UTI, as minhas dores voltaram. As dores que haviam perdido intensidade, depois da minha experiência de quase morte: dor insuportável na coluna e crise permanente de hemorroida. Agora, eu estava mais angustiado, porque eu não tinha mais nenhuma saída. O milagre havia desaparecido e eu não contava mais que curaria com remédios, porque foram longos onze meses sem resultados.

As dores voltaram na segunda-feira, 11 de junho, mas, eu fiquei sempre aguardando que, no dia seguinte, elas iriam embora. E não foram. Na quinta-feira, 14, véspera de um feriado, eu caí na real. As dores estavam ficando insuportáveis e, então, pensei em recorrer aos velhos antibióticos e remédios pra dor.

Acho que não há nada pior do que a decepção de um milagre, porque é como se, de forma invisível, te tirassem o chão, te trancassem num quarto escuro e você não conseguisse, sequer, saber se havia porta, mesmo que sem chave.

O que fazer agora? Voltar aos antibióticos e analgésicos, que eu tinha usado tanto tempo e não tinham me curado? Voltar a sessões de fisioterapia, que eu não conseguia dar regularidade? Lembrei de cada remédio que eu tomava e sua ineficácia. Começar tudo de novo me angustiava.

Comecei a entrar em desespero, porque voltou todo o filme de dor, desesperança, desconforto e angústia dos meses anteriores. Será que Deus me abandonou? Será que estou pagando por algo que fiz? Deus é mesmo justo e se compadece de seus filhos ou é um Senhor poderoso e que apenas nos julga, como no Antigo Testamento?

Esses pensamentos turvos me dominavam e me tiravam a paz que eu havia experimentado nas últimas três semanas. O mais grave é que eu fiquei escondendo as minhas dores, porque revela-las era negar um milagre. Acho que esse foi o meu pior momento. Foi como ver o meu avião caindo e seguir rindo para os passageiros da poltrona do lado.

A quinta e sexta-feira seguintes foram inomináveis: voltou a tontura e, sempre próximo do meio dia, comecei a sentir zumbidos nos ouvidos, forte desconcentração no que ouvia, vista turva, o corpo febril e uma resistência às salas com ar condicionado. Eram os sintomas, em frequência mais baixa, do dia que que vivi minha experiência de quase morte.

Mas, o que mais incomodava, deixando um rastro de medo e de insegurança, era a impaciência que tomava conta da minha cabeça, uma irritação forte e sem explicação. Qualquer contradição me irritava e logo eu, que sempre fora compassivo e tolerante com as adversidades vinculadas à mente humana e ao convívio na família ou no trabalho, principalmente na política. Percebi que aquela crise profunda de pressão arterial mexera com meu sistema nervoso e com o pedaço do cérebro que coordena as nossas emoções.

Aí eu media a pressão arterial, tudo normal. Isso me deixava mais inseguro ainda, porque eu não conseguia identificar a causa daquele mal estar que me vinculava a uma experiência de quase morte. É algo que te angustia e te deixa fragilizado.

No domingo, no jogo do Brasil, com a família, foi um suplício: minha coluna doía se sentasse ou se deitasse. No final da tarde, decidi retomar as minhas caminhadas. Aí, enquanto caminhava, descobri que havia caminhado apenas quatro vezes durante as três semanas após a crise de pressão arterial. Eu, simplesmente, achei que estava curado e não precisava fazer nenhum esforço pra manter a cura. Eu achava que Deus tinha a obrigação de fazer tudo.

Enquanto caminhava, sozinho, fiquei a pensar sobre aquele milagre incompleto, que me devolvera a vida, mas, não me curara.

Sentindo dores na coluna, enquanto caminhava, lembrei que, após fazer duas tomografias computadorizadas, consultei quatro bons especialistas, com o resultado das tomografias nas mãos. Dois me disseram que eu tinha um princípio de hérnia de disco e dois afirmaram que minha coluna vertebral não apresentava nenhuma lesão.

Como podia um princípio de hérnia de disco doer tanto? Eu não ouvia meus amigos, que tinham duas, três hérnias de disco, reclamando tanto de dores como eu.

OS MILAGRES ABREM OS OLHOS DA GENTE

Mas, a palavra milagre não saía da minha cabeça. O que havia acontecido mesmo naquele 14 de maio? Estaria Deus me testando ou milagres não existem?

Decidi me concentrar naquele 14 de maio e tentar lembrar e entender o que aconteceu com o milagre que, supostamente, havia perdido metade de sua força. Deus me restituíra a vida, mas, tinha permitido a volta das minhas dores.

Foi quando um relâmpago atingiu minha mente, literalmente, um relâmpago. Pois eu vi a entrada luminosa de uma montanha, por onde entrei, e revivi todas as imagens mentais da minha quase morte. Percebi que aquela montanha iluminada por dentro era o meu próprio cérebro.

Agora, eu via claramente o milagre. Deus me dera a oportunidade de viver novamente e mudar meus hábitos e minha relação com as pessoas e com o mundo de forma radical. Eu não tinha o direito de subestimar a vida que Ele me devolvera e ainda duvidar de seus prodigiosos milagres.

Deus pedia que eu olhasse com mais rigor para as minhas dores e tentasse identificar de onde elas vinham e o que fazer para cura-las. Foi quando descobri que as dores da minha coluna, na região lombar, aumentavam quando piorava minha crise de hemorroida.
Passei, então, a cuidar com mais rigor da minha hemorroida, sem descuidar da coluna, com exercícios de alongamento e outras providências de tratamento. Percebi, também, que precisava equilibrar o meu corpo, reduzir minhas taxas de açúcar, colesterol e triglicérides e desintoxicar tudo de nocivo que acumulei nos últimos cinquenta anos.

Minha primeira decisão foi radical: fazer caminhadas, todos os dias, as cinco da manhã, inclusive, aos domingos. Isso não é fácil. Um simples esmorecimento faz você desistir, basta dizer: "só vou faltar hoje". Aí começa o fracasso.

Todavia, preciso dizer que falhei, que, depois de um mês de caminhadas, parei por quase três semanas. Estou descobrindo que lutar pela vida é mais árduo do que passar num concurso público ou ganhar uma eleição. É preciso ter disciplina, mas, ao mesmo tempo, tornar essa disciplina em algo como respirar ou beber água, fazer com gosto aquilo que, no começo, parece cansativo e exige renúncia, energia física e vontade espiritual.

Decidi, também, aumentar o rigor na minha dieta de açúcar, descartando esse elemento perigoso, que mata mais do que a pólvora na civilização do século vinte e um. Pra se der uma ideia, são assassinadas, anualmente, 2,5 milhões de pessoas com armas de fogo (pólvora) e em guerras no mundo. Já a diabetes (açúcar) mata 4,5 milhões de pessoas por ano.

Passei a usar remédio natural para a minha hemorroida, feito de plantas que combatem a inflamação das veias. Passei, também, a ingerir, em jejum, água com limão. Todas as pessoas mais antigas aconselham, como tratamento natural para reduzir nossas taxas de colesterol, eliminar toxinas, melhorar a digestão e a pressão arterial, combater doenças vinculadas ao sistema respiratório e nos fornecer a milagrosa vitamina C. Outras providências, vinculadas a uma alimentação mais saudável, foram tomadas, apesar de reconhecer que essa parte da vida é a mais difícil, porque a humanidade decidiu que mais da metade do que ela come é porcaria, em tudo sobra açúcar e sal e as frituras dominam os restaurantes e lanchonetes, como as moscas dominam os lixões.

Depois de ouvir três pessoas de acentuada idade e que sofreram derrames cerebrais (uma delas já havia sofridos três), decidi, toda manhã, tomar vinte gotas de ‘aguardente alemã’, misturadas em pouca água. As pessoas que haviam sofrido esse brutal ataque do seu sistema arterial, passaram a usar aguardente alemã e não tiveram mais nenhuma recorrência. É lógico que não estou aconselhando ninguém a usar, porque não há prescrição médica e nem é remédio natural, como o uso do limão. Apenas estou reconhecendo que a profunda irritação diminuiu fortemente e eu me sinto mais seguro.

Entendi que o grande milagre foi Deus permitir que eu visse o caminho da minha cura, que era um caminho longo, uma cura a longo prazo, que exigia renúncia e sacrifícios, mas, que seria duradoura. Agora, eu compreendia Deus, não como um remédio, mas, como um mateiro, que abre a picada na mata, te indicando os lugares de cura, as árvores nas quais você pode colher frutos e as fontes de água viva, pra matar minha sede e limpar o lixo do meu corpo.

Cada dia, depois da minha quase morte, me esforço para olhar as pessoas por dentro. O que tenho conseguido perceber é assustador e, ao mesmo tempo, magnífico. Há pessoas belas por fora, poderosas, mas, que precisam de tratamento interior urgente, porque estão com suas almas comprometidas, todavia, a gente não pode fazer nada, porque elas estão convictas de que são os habitantes mais importantes do planeta e as almas mais próximas de Deus. Por outro lado, o rigor do meu olhar, tem encontrado pedras preciosas nas ruas mais escuras e nos becos mais abandonados. Pessoas humildes, das funções mais simples, tem me surpreendido com a sua nobreza e a sua sabedoria. É como se fossem anjos que não tiveram a oportunidade de usar suas asas.

Encerro esse relato, com a convicção de que o maior milagre foi Deus ter iluminado a minha mente e aberto os meus olhos. Deus transforma uma pedra num pássaro, como pode transformar um pássaro numa pedra. A gente é quem escolha se quer ser pedra ou pássaro.

O milagre de Deus se agiganta no homem, quando há, em nós, vontade férrea, fé, compaixão e amor de fraternidade. Não ganhei apenas uma vida nova, eu fui presenteado com um conteúdo especial de olhar o mundo e enfrentar meus abismos. Compreendi que o grande milagre tinha sido o meu retorno à vida, minha quase ressurreição, capaz de administrar minhas dores e cura-las a longo prazo, me livrar dos antibióticos e anti-inflamatórios, que estavam destruindo meu estômago, dilacerando a minha esperança e criando um névoa de desespero, quando se passavam meses e eu não sentia melhora, apenas algum alívio passageiro.

O milagre estava no meu jeito, agora revolucionário, de olhar o mundo, de perdoar como se fosse a minha respiração, de olhar mais para o interior das pessoas, de ver o semelhante como criatura de Deus, de amar a grama do jardim, aquela rosa quieta, aqueles prédios e o labuta de seus operários, as árvores que, agora, eu sentia que também respiravam, perceber os seres humanos fragilizados nas ruas, os hospitais, além de um lugar de dor, um espaço pra perceber e divulgar milagres, igrejas ficaram mais perto do meu coração, já não via pecado da usura, percebia ternura na palavra do pastor, passei a ficar mais tempo com a família, a vigiar e tentar controlar meu estresse e as palavras que ferem, comecei a falar com a Kika, a cachorrinha lá de casa, e me perguntar se as formigas não sentiam dor quando eu as esmagava sob os meus pés, olhar as estrelas como mundos reais do espírito humano, ver o universo infinito como lar daqueles que já partiram, e abraçar o ar da manhã como se fosse gente.

Na verdade, o grande milagre, naquele hospital, foi perceber as digitais de Deus nas coisas ao meu redor e no meu semelhante.

Moisés Diniz - Membro da academia acreana de letras.